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08 abril 2016

Resenha - O papel de parede amarelo

Título: O papel de parede amarelo
Título original: The Yellow Wallpaper
Autora: Charlotte Perkins Gilman
Editora: José Olympio
Páginas: 112
Gênero: Contos
Ano de publicação original: 1892
Ano de publicação pela José Olympio: 2016

(Cortesia da editora)
Sinopse: Este clássico da literatura feminista foi publicado originalmente em 1892, mas continua atual em suas questões. Escrito pela norte-americana Charlotte Perkins Gilman, ele narra, em primeira pessoa, a história de uma mulher forçada ao confinamento por seu marido e médico, que pretende curá-la de uma depressão nervosa passageira. Proibida de fazer qualquer esforço físico e mental, a protagonista fica obcecada pela estampa do papel de parede do seu quarto e acaba enlouquecendo de vez. Charlotte Perkins Gilman participou ativamente da luta pelos direitos das mulheres em sua época e é a autora do clássico tratado Women and Economics, uma das bíblias no movimento feminista. Esta edição de O papel de parede amarelo, que chega às livrarias pela José Olympio, traz prefácio da filósofa Marcia Tiburi.

O papel de parede amarelo é um conto escrito por Charlotte Perkins Gilman que depois de ser rejeitado, foi publicado originalmente em 1892. Dividindo a opinião pública da época, o conto poderia ser visto como assombroso e até como "algo perigoso", mas será que todos que leram realmente entenderam a mensagem que Charlotte quis passar? Sim, ele realmente é assombroso do ponto de vista psíquico, mas está acima disso, contendo além de uma grande sensibilidade, uma crítica social nas entrelinhas.

Nossa narradora parece sofrer de uma "doença dos nervos", conforme transcreve seu marido e renomado médico. Ele então a leva para passar alguns meses em uma casa de campo, alegando que ela precisa se recuperar e, para isso, a impede de sair, de escrever, ou realizar qualquer esforço. Conforme os dias passam, a protagonista vai demonstrando sua irritação e tédio por estar naquela casa sem poder realizar nenhuma atividade e ainda passar horas olhando para o papel de parede amarelo do quarto em que estão instalados, ao qual ela detestou desde que colocou os olhos. Sem achar distração melhor, ela fica completamente obcecada por ele, tentando decifrar seu padrão e, encontrando nele o seu próprio eu.

A narrativa sobre o ponto de vista da protagonista é inquietante. O desenrolar da história com a obsessão que ela tem em decifrar o padrão do papel de parede amarelo, e as reflexões que faz sobre estar impedida de fazer qualquer coisa, revelam muito nas entrelinhas. É preciso prestar atenção em todas as suas metáforas, principalmente quando ela descreve seu marido como um homem amável e gentil, que quer apenas que ela se recupere - mas nem ela realmente acredita que esteja doente. Por vezes, o leitor começará até a questionar a sanidade da narradora.


O que mais me chamou atenção nesse conto foi como a autora, de uma maneira sútil, mas muito clara, trouxe uma crítica social importantíssima. A figura da mulher no casamento do século XIX era a de mãe e esposa, estando exclusivamente comprometida em cuidar do lar e servir ao seu esposo. Ao serem tratadas com forçadas gentilezas e "palavras românticas" como, "probrezinha" e "minha menina", e a falsa sensação de segurança que lhes era transmitida, as mulheres estavam então encaixadas no padrão da sociedade daquela época, a de um sexo frágil, submisso e com obrigações que só pertenciam a elas. Nossa heroína, como tantas mulheres naquele século e ainda hoje, nasceram livres e com vontades próprias, mas é como se sempre terminassem, por uma questão de dependência, rastejantes em cima de seus maridos.

O aprisionamento, que na maioria das vezes, é imperceptível aos olhos, é revelado pelo papel de parede amarelo, em que nossa heroína observa noite e dia, por falta de ter que o fazer. Charlotte não quis trazer apenas uma visão feminista, mas faz um convite às mulheres do seu tempo, para se libertarem do papel de parede amarelo, que as aprisiona em um padrão estabelecido pela sociedade.

Um livro incrível, que só poderia ter um trabalhado gráfico igualmente excelente. Além de uma fonte grande e um ótimo espaçamento, as folhas são amareladas, dando mais conforto e comodidade à leitura. Além disso, a revisão também está impecável. Somado a isso, temos uma capa linda e em total sintonia com a obra.

"John é muito atencioso e amável, não permite que eu dê um passo sequer sem instruções especiais." (p. 15)

"Mas não devo pensar nisso. Esse papel de parede olha para mim como se soubesse da terrível influência que exerce!" (p. 23)

O papel de parede amarelo é o melhor conto que li até hoje. Pequeno e muito rápido de ler, ele é ainda extremamente complexo, por todas suas metáforas e críticas sociais. Por ter uma grande semelhança com a vida da autora, o conto reafirma o papel da mulher na sociedade do século XIX e nos traz ainda mais reflexões. Um clássico impecavelmente bem escrito, assombroso e, ao mesmo tempo, repleto de sensibilidade, que merece ser lido e aplaudido.

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16 comentários:

  1. Oi Leticia, assim que recebi essa obra, devo confessar que fiquei meio receosa com essa leitura. Porém, comecei a conferir alguns detalhes sobre a autora e o próprio clássico , por isso fiquei mais curiosa. O que mais chama a atenção é que é uma leitura cheia de interpretações, o que varia muito de leitor para leitor. E no fim, também achei um livro incrível.
    Beijos, Fer

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  2. Um livro que li há uns meses atrás e gostei muito, principalmente da "livre interpretação" de algumas coisas.

    A resenha ficou ótima!!

    Beijos.

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  3. Não sou muito fã de contos, principalmente por serem muito curtos, mas esse é até grandinho, parece um livro. rs Já tinha visto divulgação sobre ele, mas não sabia do que se tratava até ler a resenha. Um tema muito importante para refletir, principalmente com o assunto do papel da mulher na sociedade e as lutas feministas tão em pauta atualmente.
    Beijos!
    www.sigolendo.com.br

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  4. Não conhecia o livro a bem pouco tempo e de repente, todos estão falando dele. Adorei o enredo e sobretudo, a pertinência do tema para os dias atuais, onde infelizmente, a mulher é subjugada em inúmeros aspectos. Este é um livro que eu quero ter e quero presentar amigas e principalmente, amigos!!!
    Valeu a dica!!!
    MEU AMOR PELOS LIVROS
    Beijos

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  5. Oi, eu estou vendo esse livro em muitos blogs e fiquei louca para lê-lo, já que ele tem ideias do movimento feminista e mesmo sendo um livro que foi publicado há muito tempo, ele é muito atual, principalmente nos dias de hoje. Amei a resenha e quero logo ler esse livro para tirar minhas proprias conclusões.
    bjus

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  6. Olá Letícia,
    Tenho muita vontade de ler esse conto, pois acho a premissa dele muito interessante. Quero entender como a protagonista reage a tudo o que passa e como se encontra no papel de parede amarelo.
    Gostei muito de sua resenha, ela me abriu novos horizontes e me fez sentir muita necessidade de ler.
    Beijos,
    http://mileumdiasparaler.blogspot.com.br/

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  7. Olá
    Eu já vi várias críticas bem bacanas feitas por BookTubers e amei de mais, achei toda a trama. Parece bem legal, e não parece ser nada chato essa livro apesar de ter sido escrito a vários anos atrás. Espero poder ler em breve. Adorie a sua resenha, até mais vê
    Bjsk

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  8. Oie. adorei saber que você gostou desse conto, assim que vi o lançamento me interessei e tenho aqui para ser lido. Gosto dessa crítica social implícita sobre o papel da mulher, e tenho a impressão de que a mulher não estaria sofrendo dos nervos mas com tanto aprisionamento e aquele papel de parede ela passa até a possivelmente ter, isso são só divagações já que ainda não li, risos. Espero poder ler logo e gostar tanto quanto você.

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  9. Eu estou muito curiosa com essa obra, parece ser muito complexa mesmo e com temas muito fortes. Acho que para cada leitor, fará um significado diferente, cada um pensará de uma maneira e certamente todos terão reflexões. Quero muito poder ler essa obra

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  10. Olá!! :)

    Estou muito curioso quanto a esse conto! Confesso que adoro historia e o facto de a obra se relacionar com o papel da mulher no seculo XIX e outros fatores do genero... Fascina-me! :)

    Ah! E a critica social e a reflexao inerentes a obra deixam-me com "agua na boca" para o devorar!! ahah E ainda bem que achaste bom de ler!! :)

    Infelizmente ando cheio de leituras e nao sei quando vai acontecer, mas hei de o ler!! :)

    Boas leituras!! ;)
    no-conforto-dos-livros.webnode.com

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  11. Oi Leticia, eu também recebi esse livrinho e li o conto e me apaixonei, acredito que ele transmite tudo o que era necessário, o aprisionamento da mente de uma mulher e tudo o que ela passou. Gostei muito e sempre que posso estou indicando!

    Beijos

    http://www.oteoremadaleitura.com/

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  12. Já li tantas resenhas desse livro e só posso dizer que a cada resenha que leio, fico mais curiosa pra ler esse livro. Adoro o tema, e por ser conto, que é pequeno e mais dinâmico, dá mais vontade de ler ainda. Espero que tenha a oportunidade de ler e conferir essas críticas sociais. A capa é maravilhosa!

    Virando Amor

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  13. Oiee ^^
    Eu também achei esse livro incrível! Não o conhecia até recebê-lo da editora, e confesso que, de primeira, não esperava muito dele, mas a autora me surpreendeu. Sabia que as mulheres eram inferiorizadas (ainda são, né.) no passado, mas não imaginei que era tanto assim. Me sentia angustiada com o relato da protagonista, é mesmo muito inquietante.
    MilkMilks
    http://shakedepalavras.blogspot.com.br

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  14. OIe. Nossa que livro interessante! Realmente imagine a pessoa ficar sem poder fazer absolutamente nada? Não tem como não enlouquecer desta forma se a mente fica presa em algo totalmente sem cabimento e fico me imaginando na pele desta personagem, não teria como não enlouquecer. E é bem ditado com a sociedade, pois de todas as formas a mulher tem toda uma estrutura e com o passar dos séculos foi obtendo uma realidade mais madura e mesmo assim sofre as consequências.

    Beijos,

    Greice Negrini

    Blogando Livros
    www.amigasemulheres.com

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  15. Eu adoro livros que trazem críticas sociais e fazem o leitor refletir. Mas, no momento não estou para este tipo de leitura, então dei o livro que eu recebi da editora para minha colaboradora resenhar. Acredito que é uma leitura quase que obrigatória por tratar de assuntos tão importantes. Gostei da sua resenha!
    beijos
    www.apenasumvicio.com

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  16. Tive a oportunidade de iniciar a leitura porém não consegui terminar, pelo tanto que li não pude notar nenhuma mensagem que a autora quis passar.

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